A perfeição existe? Famílias e trabalho social

Se há um assunto comum a todas as pessoas, este assunto é o significado de família, para o bem, para o mal, para o mais ou menos, para o tudo ou para o nada.
Muitas vezes, a família é a vilã, o bode expiatório nas situações de vulnerabilidade e/ou risco social e pessoal. Outras tantas vezes, é vista como mal necessário, e assim por diante.
Fato inegável é que todo ser humano precisou ser cuidado por, pelo menos, um adulto, para sobreviver nos primeiros anos de vida e, a partir daí, construir sua visão de mundo e de família, repetindo modelos ou se transformando no oposto do que viu.
Durante muito tempo, as famílias foram alijadas do processo de trabalho social, sendo o foco marcante o indivíduo identificado como “problemático”, “difícil”, “agressivo”, “antissocial”, “doente” etc.
Observamos que, do final da década de 1990 até o início dos anos 2000, a família volta a ser olhada como espaço legitimado no qual o indivíduo pode crescer e se superar, desde que visto no contexto da mesma.
É interessante observar que esse distanciamento da família ocorreu em um momento no qual novos arranjos familiares estavam se concretizando na sociedade e, independentemente da vontade e/ou desejo das pessoas engajadas em processos de transformação social, elas vieram para ficar e serem inseridas no contexto das soluções compartilhadas.
Algumas considerações importantes:

Família Ideal (Pensada), Família Vivida e Multifamílias na Comunidade

Parece que o conceito de Família Ideal (Pensada) é igual ao conceito de bom senso – ou seja, todos acham que têm.
A Família Ideal (Pensada) é idealizada, semelhantemente à da propaganda de tevê, em que todos vivem em estado de total harmonia, felicidade permanente e perfeita. Não há conflitos. E vêm imediatamente à nossa mente, de acordo com o nosso referencial familiar pessoal, características de personalidade, experiências profissionais etc.
Já a Família Vivida nos remete a um conceito mais real e palpável, tanto para a nossa prática profissional quanto para a aceitação do nosso próprio grupo familiar.
Na família vivida cabem todos os modelos: a família intacta, a família recasada/mosaico, monoparental, de pessoas do mesmo sexo, reunidas por laços afetivos, por pessoas em situação de rua, grupos religiosos, família de origem ou família atual etc.
Ao trabalhar com o conceito de Família Vivida, é possível ampliar o conceito e trabalhar com multifamílias, mudando o paradigma do âmbito privado para o público e comunitário, facilitando o processo de construção coletiva de alternativas de convivência, valorização e resgate de estima, trabalhando com o enfoque da resiliência.
Fica aqui uma pergunta para reflexão, sempre útil para aprimorar a prática com famílias e multifamílias: espero encontrar Famílias Ideais ou Vividas quando atuo?
O Profissional: o que diz e o que ouve
As palavras, assim como os gestos, têm muito força; algumas formas de nomear o segmento de pessoas que acompanhamos, nos grupos familiares e comunitários, podem dar um sinal que identifica como o profissional e/ou a equipe técnica se coloca nesse contexto.
O que vocês acham daquele profissional ou equipe que escreve e/ou fala: eles e nós?
Quem são eles? Todos os envolvidos no processo de atendimento/acolhimento/acompanhamento, e nós, todos…. todos os envolvidos no processo de atender/acolher/acompanhar?
Só na divisão desses dois pronomes já identificamos um abismo. Não é à toa que um livro produzido por um grupo de jovens com síndrome de Down tem o título: Mude seu falar que eu mudo meu ouvir.
Mais um espaço para reflexão: será essa forma de falar um ato falho, já cristalizado por trás dos paradigmas que criamos, ou uma visão ideológica daquilo que entendemos ser a limitação do outro?

Família e Visão Sistêmica

Como o espaço para o trabalho com famílias e multifamílias é amplo, a visão sistêmica amplia e fortalece as diversidades dos grupos familiares e possibilita novas formas de convivência familiar e comunitária.
Ao nos aprofundarmos nessa temática, é possível realizar trabalhos segmentados por prioridade e/ou necessidade, de acordo com a demanda.
A visão sistêmica trabalha com alguns eixos norteadores importantes, mas principalmente com a ideia central de não atuar apenas no efeito, ou seja, no indivíduo que está identificado como “bode expiatório”, senhor de todos os problemas, contextualizando o ambiente familiar e/ou social para entender a causa daquela situação. Como numa dança, todos têm de dar um ou mais passos e sair da “zona de conforto” onde se colocaram, na medida em que apenas uma pessoa deixa de ser o alvo dos cuidados, passando a integrar um grupo familiar em processo de transformação.
É possível refletirmos com as seguintes perguntas: estou preparado para atuar de forma horizontal, disposto a trabalhar naquilo que não foi dito? Qual é o meu limite de atuação tanto institucional quanto pessoal?

Famílias, Multifamílias e temáticas recorrentes

Embora cada comunidade seja única e singular, algumas temáticas são recorrentes nestes tempos em que vivemos, sendo comum problematizá-las nos grupos familiares: Dependência Química e Codependência, Violência Domiciliar e Urbana, Envelhecimento e as várias formas de envelhecer na nossa sociedade, o Lugar do Idoso na Família, Direitos Individuais e Coletivos de Crianças, Adolescentes, Inclusão Social, entre outros.
Claro está que, para inserir todos os conteúdos dessas temáticas, é imprescindível trabalhar em rede, valorizar os saberes acadêmicos e populares, conhecer experiências exitosas e se preparar para atender às novas demandas que as tecnologias sociais impõem.
Refletindo: estou confortável neste lugar onde me encontro? O que é necessário para eu mudar de posição, se for o caso?
Quaisquer que sejam as respostas para as perguntas aqui feitas, é sempre bom lembrar que muitas das coisas que encaramos como grandes desafios nada mais são do que desenvolver a nossa capacidade de estabelecer nossos limites e deixar que a vida flua.
Assim, garantimos a nós mesmos e, portanto, também aos outros, certo grau de serenidade e felicidade para valer a pena viver nossas escolhas pessoais e profissionais. Lembrando que não precisamos ser perfeitos, mas inteiros.

Informe Parceiro Financiador

Cursos e Eventos Diálogo Social

Rede Filantropia

A Rede Filantropia é uma plataforma de disseminação de conhecimento técnico para o Terceiro Setor, que busca profissionalizar a atuação das instituições por meio de treinamentos, publicações, palestras, debates, entre outras iniciativas.

Acompanhe nossas redes

insta
whats
linkedin
facebook

®2026 Rede Filantropia

Rede Filantropia