No atual cenário do voluntariado no Brasil, as plataformas online desempenham um papel cada vez mais relevante ao conectar indivíduos dispostos a doar seu tempo e habilidades a causas significativas em todo o país.
Essas páginas na web quase sempre oferecem um caminho rápido e fácil para que pessoas interessadas em fazer o bem encontrem oportunidades de engajamento que correspondam aos seus interesses. Por outro lado, a plataforma também garante às ONGs que buscam assistência para os seus projetos encontrem voluntários dispostos a realizar o “match”.
Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), mais de 7 milhões de brasileiros dedicaram parte de seu tempo ao voluntariado em 2023, representando 4,3% da população adulta do país – o que representa uma realidade crescente entre os brasileiros, já que, em 2018, esse número era de 6,5 milhões.
O consultor e palestrante Roberto Ravagnani, diretor da plataforma VOL, iniciou sua carreira nesta seara da melhor maneira possível: como voluntário em ações sociais. Há 25 anos, quando ainda morava em Ilha Solteira (SP), começou a dar aulas para jovens na área de energia elétrica básica de forma voluntária.
“Comecei a estudar o tema a partir do momento em que me convidaram para fazer palestras sobre o trabalho que eu realizava. Em 2000, já em São Paulo, as pessoas me procuravam para ensinar como incentivar sua rede de amigos para também se dedicarem ao voluntariado. E as organizações me pediam dicas de como trazer esse público para contribuir com seus projetos. Aos poucos, fui desenvolvendo e validando processos, até que percebi que isso poderia virar efetivamente uma profissão”, diz.
Hoje ele roda o Brasil e América Latina falando sobre o tema e, recentemente, juntou-se a outros especialistas no Terceiro Setor para lançar uma nova plataforma e levar tecnologia para a relação entre quem deseja oferecer um serviço voluntário e os projetos sociais que precisam desse apoio.
“A plataforma VOL já está no ar e seu principal objetivo é minimizar os desafios das organizações sociais na hora de fazer a gestão administrativa deste trabalho não remunerado. Para isso, oferecemos uma área de gestão para a OSC cadastrar e acompanhar quem, como, quando, onde e o que está sendo feito nos seus projetos”, explica.
O acesso à ferramenta pelas organizações é gratuito. Já para as empresas, universidades privadas, associações de classe e outras, haverá a cobrança de uma taxa, de acordo com cada necessidade. “A ideia é fortalecer essa prática, tornando-a mais transparente, democrática e eficiente para os dois lados”, diz.
Um diferencial da nova plataforma, é que a VOL está criando um programa de benefícios para os voluntários. Como uma espécie de programa de fidelidade, o sistema vai somando pontos cada vez que uma pessoa realiza uma determinada ação filantrópica. Quando atingir um certo limite de pontuação, o voluntário poderá trocá-los por atrativos como descontos em compras em marketplaces, cursos etc. “Também vamos desenvolver uma área para as universidades divulgarem suas oportunidades de trabalho voluntário aos seus alunos”, adianta.
Para implementar essas novidades, Ravagnani conta que está fechando parcerias, como a realizada com o Idealist – uma versão norte-americana de plataforma de ofertas de trabalho remunerado para OSCs de todo o mundo. De fora, também deve vir uma parceria na área de gestão do trabalho voluntário corporativo. “Nosso maior investidor hoje é o Instituto Credicitrus. Mas também estamos buscando colaborações”, diz.
Ravagnani diz que a tecnologia será um importante catalisador na transição do voluntariado informal para uma gestão profissional deste trabalho. Contudo, é importante que essas ferramentas estejam acessíveis e sejam funcionais a todas as organizações. “O trabalho voluntário ainda é visto como supérfluo no Brasil. Precisamos mudar essa imagem urgente”, diz.
Para ampliar a visibilidade deste setor, a VOL criou há 3 anos um prêmio que reconhece as práticas de empresas, OSCs, pessoas físicas e profissionais da comunicação que se dedicaram ao trabalho voluntário no Brasil. A próxima edição do Prêmio VOL será em outubro, ainda sem local definido.
Uma das ferramentas pioneiras neste tema é a Atados. Criada em 2012, seus fundadores entenderam rapidamente que era preciso um “click” para facilitar o encontro dos mais variados talentos com as necessidades das ONGs. Com mais de 250 mil voluntários cadastrados em seu site, a Atados oferece uma ampla gama de oportunidades para quem quer praticar o bem, seja para dar aulas de reforço, escrever projetos, desenvolver sites, fazer serviços de alvenaria e demais atividades. Por outro lado, a Atados conta com cerca de 4.500 organizações sociais cadastradas, em diferentes frentes e regiões do país.
Gabriel Viparo, gerente de produtos da Atados, compartilha o início da maior rede de engajamento social do Brasil. “A ideia surgiu de quatro amigos que identificaram a demanda por uma plataforma que facilitasse a conexão entre voluntários e ONGs. Eles estavam tão certos que, no dia do lançamento da plataforma, em 2012 ela caiu, saiu do ar, com tanta gente acessando para fazer um trabalho voluntário. Foi um problema bom, pelo menos”, lembra.
Viparo pontua que, embora a Atados seja uma organização sem fins lucrativos, eles cobram por alguns serviços da plataforma para se manter: “Prestamos serviços de consultoria em responsabilidade social corporativa, por exemplo. Já atendemos mais de 200 empresas e mantemos sempre uma relação muito próxima com as organizações sociais”.
Ele também enxerga o crescimento do mercado brasileiro de voluntariado e não vê essa expansão de outras plataformas como uma concorrência negativa: “Existem várias empresas ingressando neste setor, mas também há uma colaboração entre os atores deste segmento, pois todo mundo quer fortalecer a responsabilidade social corporativa no país.”
A Atados tem se destacado no mercado internacional, estabelecendo parcerias com redes de voluntariado, como a Points of Light, uma gigante nos Estados Unidos. A presença em outros países, inclusive, faz parte dos planos da Atados para este ano, seja estabelecendo novas parcerias, seja com novos serviços no portfólio. No ano passado, eles lançaram a Atados Benches – uma incubadora para negócios sociais. “Estamos olhando para alguns projetos voltados a jovens aprendizes e temos a ideia de criar uma consultoria de ASG, de diversidade e inclusão.”
Um terceiro exemplo de quem apresenta voluntários às organizações sociais é o Conecta Brasil. O Instituto é uma organização sem fins lucrativos, que promove o crescimento da cultura da doação e do voluntariado no Brasil por meio de uma plataforma digital e 100% gratuita, fazendo a ponte entre instituições, doadores e iniciativas. Laura Barbosa, gestora de Projetos Sociais da instituição, conta que a ideia da plataforma surgiu em meio à pandemia.
“Os fundadores, que são empresários do mercado de capitais, sempre foram muito engajados em causas sociais, principalmente, com a doação de cestas básicas. Porém, durante a pandemia, em 2021, o número de pessoas necessitando de ajuda disparou, acompanhando o aumento do desemprego, da inflação, principalmente, em regiões periféricas das cidades. Então, eles acionaram vários contatos de outras empresas e pessoas físicas dispostas a colaborar, formando uma rede do bem. A plataforma foi uma maneira de sistematizar essas doações, usando tecnologia. “, afirma.
Segundo Laura, a vantagem da plataforma da Conecta são suas múltiplas funções. Por meio do site https://conectabrasil.org/, as organizações sociais podem não só achar voluntários para fazeres específicos (aulas de reforço, por exemplo), como também gerenciar essas pessoas e ainda iniciar campanhas para captação de recursos, num modelo parecido com os sites de “vaquinha”. “As campanhas têm duração de 30 dias e podem ser divulgadas tanto pela rede de doadores da Conecta Brasil quanto pela própria instituição”, acrescenta.
Já as pessoas físicas podem se cadastrar para as vagas de voluntariado, podem fazer doações identificadas pelas ONGs ou doar uma quantia para que a própria Conecta converta em algum produto físico (alimentos, por exemplo) para atender às necessidades das instituições. As doações podem ser feitas por diversos meios de pagamento, no próprio site.
Como as demais, a Conecta é uma plataforma que aposta em parcerias para crescer, uma delas o FIFE – Fórum Internacional de Filantropia e Estratégia, onde foram palestrantes do evento em Belo Horizonte. “Temos uma parceria com Pra Quem Doar, que é uma plataforma da Rede Globo, também trabalhamos com a Quadrifla, de Goiânia, e com a Organização de Voluntários de Goiás.”
Embora recente, a plataforma já conta com mais de 2 mil instituições cadastradas, realizou mais de 1.300 campanhas e os impactos alcançados somam cerca de 190 mil beneficiários.



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