Tecnologia e olhar social: novos caminhos para a análise socioeconômica no CEBAS

Patrícia Zorovich (*), Kildare Araújo Meira (**), Daniel Carneiro e Daniel Maia (***)

A concessão de bolsas de estudo em instituições de educação envolve uma grande responsabilidade. É necessário garantir que os benefícios sejam direcionados às famílias que efetivamente atendem aos critérios socioeconômicos, respeitando a legislação aplicável, a realidade social dos estudantes e a sustentabilidade da própria instituição.

Esse processo, no entanto, tornou-se cada vez mais complexo. As instituições precisam lidar com diferentes configurações familiares, rendimentos informais, documentos incompletos, movimentações financeiras difíceis de interpretar, grande volume de solicitações e, mais recentemente, documentos que podem ser facilmente manipulados com o uso de inteligência artificial, dificultando ainda mais a análise das assistentes sociais.

Quando a análise depende exclusivamente de formulários, documentos enviados manualmente, planilhas e conferências individuais, alguns problemas tornam-se frequentes: demora na avaliação das solicitações, retrabalho para as equipes e famílias, dificuldade para identificar inconsistências, interpretações diferentes entre os profissionais e pouca visibilidade sobre a renda e as despesas reais do grupo familiar. Também podem surgir fragilidades na documentação dos critérios utilizados e dificuldades para recuperar evidências em processos de supervisão, auditoria ou fiscalização.

Além de consumir tempo das equipes, essas limitações podem comprometer a equidade do processo e dificultar a atuação estratégica da assistência social. Por isso, a análise socioeconômica não pode ser compreendida apenas como uma conferência de documentos ou como o cálculo da renda familiar per capita. Ela exige método, informações confiáveis, capacidade de interpretação, rastreabilidade e sensibilidade para compreender a realidade individual de cada núcleo familiar.

Tecnologia a serviço da análise socioeconômica

A tecnologia pode contribuir para organizar informações, padronizar etapas e reduzir atividades operacionais repetitivas. Isso não significa, entretanto, transformar a análise socioeconômica em uma decisão automática. O objetivo deve ser oferecer melhores condições para que o profissional compreenda a realidade financeira da família, identifique situações que exigem aprofundamento e registre os fundamentos utilizados na análise.

Em processos tradicionais, o assistente social pode precisar dedicar grande parte de seu tempo à leitura manual de extratos, organização de documentos, transcrição de informações e realização de cálculos. Com o apoio adequado da tecnologia, essas informações podem ser apresentadas de maneira mais organizada, facilitando a identificação de fontes de renda, despesas relevantes, movimentações entre familiares e possíveis divergências entre os dados declarados e as evidências apresentadas.

A tecnologia funciona, portanto, como um instrumento de apoio para aumentar a consistência das análises; reduzir tarefas operacionais repetitivas; identificar situações que exigem maior atenção; organizar documentos e evidências; ampliar a rastreabilidade das decisões e oferecer maior segurança para profissionais, gestores e mantenedores. A decisão, no entanto, continua pertencendo à instituição e aos profissionais responsáveis pelo processo.

O que isso representa para o CEBAS

As entidades educacionais certificadas ou que buscam a certificação do CEBAS precisam conciliar diferentes responsabilidades. É necessário acolher as famílias, aplicar os critérios de maneira justa, documentar adequadamente as decisões e demonstrar que as bolsas foram concedidas em conformidade com os requisitos legais e institucionais.

Na prática, entretanto, muitas situações não são facilmente resolvidas por meio de um único comprovante. Como analisar rendimentos informais ou variáveis? Como diferenciar renda de transferências entre familiares? Como avaliar mudanças recentes na situação profissional? Qual é a composição efetiva do grupo familiar?

Essas questões demonstram por que a análise socioeconômica precisa combinar critérios objetivos, informações financeiras, avaliação profissional e conhecimento da realidade familiar.

Nos processos relacionados ao CEBAS, não basta que a instituição chegue a uma decisão. É necessário demonstrar como essa decisão foi construída. A instituição precisa ser capaz de recuperar, informações, cálculos, inconsistências identificadas, critérios aplicados e fundamentos utilizados na concessão ou no indeferimento do benefício.

A rastreabilidade contribui para reduzir interpretações diferentes entre profissionais; fundamentar pareceres e decisões institucionais; facilitar revisões e reavaliações; organizar documentos e evidências; diminuir o retrabalho; proporcionar maior segurança em auditorias e fiscalizações e promover maior equidade entre as famílias analisadas.

Um processo rastreável não é apenas aquele que armazena documentos. É aquele que permite compreender o caminho percorrido entre a solicitação apresentada pela família e a decisão final da instituição. A tecnologia pode apoiar a construção dessa trilha de evidências. Entretanto, a simples digitalização de documentos não resolve o problema. É necessário uma fonte de dados com credibilidade que permita uma simplificação do processo para todas as partes, permitindo que as famílias compartilhem seus dados com menor fricção e que a assistência social tenha acesso de forma organizada para que as informações possam ser compreendidas, comparadas e contextualizadas, preservando sua autonomia e seu papel na interpretação da realidade de cada família.

O papel indispensável da assistência social

A atuação da assistente social é fundamental para que a análise considere elementos que dificilmente podem ser compreendidos apenas por formulários, comprovantes ou critérios matemáticos. Uma família pode apresentar renda próxima ou até superior aos limites estabelecidos, mas enfrentar despesas extraordinárias, desemprego recente, doenças, endividamento ou mudanças importantes em sua composição. Da mesma forma, os dados apresentados podem não representar integralmente os recursos efetivamente disponíveis.

Cabe ao profissional interpretar essas informações, compreender o contexto social, identificar situações de vulnerabilidade e produzir um parecer tecnicamente fundamentado. A tecnologia não substitui essa atuação. Ao contrário, pode oferecer informações mais organizadas, confiáveis e abrangentes para apoiar o trabalho.

Com a digitalização e o avanço da inteligência artificial, atualizar-se deixou de ser apenas um diferencial. Os profissionais que souberem utilizar essas ferramentas poderão reduzir o tempo dedicado à conferência manual e concentrar sua atuação nas situações que realmente exigem interpretação, entrevistas, escuta qualificada e conhecimento técnico. Mais do que acompanhar essa transformação, é importante participar dela, contribuindo para que a tecnologia seja utilizada de forma ética, crítica e alinhada à realidade social das famílias.

Eficiência também significa mais atenção às famílias

A eficiência operacional não deve ser vista apenas como redução de custos ou de tempo. Quando a tecnologia assume parte das atividades repetitivas, o profissional passa a ter mais disponibilidade para conversar com as famílias, compreender situações excepcionais e aprofundar os casos mais sensíveis. Isso pode melhorar a experiência do solicitante e a qualidade das decisões. Em vez de tornar o processo mais distante, a tecnologia pode permitir uma atuação mais humana, pois libera o profissional de tarefas que pouco agregam à escuta e à interpretação social. Portanto, a combinação entre dados financeiros, critérios institucionais e avaliação profissional representa um caminho mais equilibrado para os processos de concessão de bolsas.

Novas possibilidades com a Inteligência Artificial e dados do Banco Central

Entre as tecnologias que começam a ser aplicadas à análise socioeconômica está, mediante o consentimento do usuário, o uso da base de dados do Banco Central, por meio da tecnologia do Open Finance. Com o consentimento dos integrantes do grupo familiar e dentro das regras de proteção de dados, é possível organizar informações financeiras provenientes das instituições participantes do sistema. Esses dados podem apoiar a identificação de fontes recorrentes e não recorrentes de renda, rendimentos formais e informais, despesas relevantes, patrimônio, endividamento, movimentações entre integrantes do mesmo grupo familiar e divergências que demandem uma avaliação mais aprofundada.

Hoje, instituições de ensino como PUC-Rio, PUC-SP, Unicap, Insper e Inteli usam a inteligência artificial para apoiar na organização e na análise de dados financeiros utilizados em processos de bolsas, descontos e benefícios educacionais. A proposta não é substituir o parecer social nem retirar da instituição a responsabilidade pela decisão. A tecnologia funciona como uma ferramenta de apoio, ajudando a organizar as evidências, reduzir atividades manuais e construir uma trilha mais clara das informações consideradas em cada análise.

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(*) Patrícia Zorovich é assistente social.

(**) Kildare Araújo Meira é sócio da Covac Sociedade de Advogados.

(***) Daniel Carneiro e Daniel Maia são fundadores da Educaopen, uma empresa de tecnologia que usa IA e Open Finance para apoiar IES na concessão de descontos, bolsas e negociações.

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