Thaís Iannarelli (*)
A pergunta que dá título a este artigo ainda provoca desconforto em muitas organizações da sociedade civil (OSCs). Afinal, quem define se uma iniciativa foi bem-sucedida: quem financia ou quem recebe a intervenção? A resposta, embora pareça simples, é complexa e revela um dos maiores desafios da gestão no Terceiro Setor: equilibrar expectativas externas com necessidades internas, traduzindo impacto em linguagem compreensível para públicos muito distintos e, muitas vezes, contraditórios.
Historicamente, a noção de sucesso em projetos sociais foi moldada por uma lógica de prestação de contas voltada majoritariamente aos doadores. Esses financiadores (indivíduos, empresas, fundações ou o próprio Estado) buscam resultados tangíveis, indicadores claros e evidências de que o investimento gerou retornos sociais mensuráveis.
Essa lógica trouxe avanços importantes para a profissionalização das OSCs, como melhoria da governança, planejamento estratégico mais rigoroso e maior clareza na definição de metas. No entanto, também gerou uma tensão que continua a crescer: até que ponto o olhar externo pode substituir a voz dos beneficiários?
Do lado de dentro, beneficiários, ou seja, as pessoas e as comunidades atendidas, têm expectativas, vivências e percepções que nem sempre se traduzem em indicadores formais. Para muitos, sucesso é ser ouvido, respeitado, incluído. É ver transformações que podem não caber em métricas tradicionais: fortalecimento da autoconfiança, ampliação de redes de apoio, sensação de segurança ou acesso a oportunidades antes invisíveis. Esses resultados subjetivos, porém, profundos, raramente aparecem nos relatórios enviados aos financiadores, criando um paradoxo silencioso: projetos “bem-sucedidos” nas planilhas podem ser considerados insuficientes por quem mais importa.
A maturidade da gestão no Terceiro Setor exige reconhecer essa dualidade. Uma organização social não existe apenas para cumprir metas numéricas; existe para gerar transformação real. Mas transformação real exige escuta ativa, diálogo contínuo e mecanismos sólidos de participação social. Beneficiários não podem ser apenas fontes de dados, precisam ser cocriadores dos projetos. Isso pede metodologias de avaliação que contemplem dimensões quantitativas e qualitativas, instrumentos participativos e a inclusão de indicadores compostos por percepções, expectativas e experiências locais.
Por outro lado, é ilusório ignorar que o financiamento continua sendo o motor que mantém projetos vivos. Doadores têm necessidades legítimas de monitoramento, de comprovação do impacto e de alinhamento com suas próprias agendas estratégicas. É nesse ponto que a gestão de OSCs precisa atuar como ponte, mediando linguagens, alinhando expectativas e transformando realidades complexas em narrativas transparentes e éticas. Não se trata de escolher um lado, mas de construir modelos híbridos de avaliação que valorizem, simultaneamente, a robustez técnica e a sensibilidade social.
Cada vez mais, financiadores também têm entendido que impacto não se resume a números. Relatórios centrados em pessoas vêm ganhando espaço. Metodologias como avaliação participativa, Teoria da Mudança coconstruída e monitoramento sensível ao contexto têm sido adotadas em diversas instituições. Essas abordagens reconhecem que o sucesso não é linear e que os resultados podem ser múltiplos, inesperados e até intangíveis. O desafio é transformar esses intangíveis em argumentos convincentes, sem reduzi-los à superficialidade de indicadores simplificados.
No centro desse debate está uma pergunta essencial: é possível medir transformação sem ouvir quem a vivencia? A resposta é evidente: não. Mas isso não significa abandonar métricas, mas repensá-las. Significa aceitar que o impacto social é uma combinação complexa de dados, histórias, indicadores, percepções e mudanças que se manifestam ao longo do tempo. Constitui, também, reconhecer que cada projeto tem múltiplos públicos de interesse, e que todos têm direito de compreender e avaliar os resultados.
Para os gestores do Terceiro Setor, o desafio é duplo: incorporar práticas de gestão que tornem a organização sólida, confiável e transparente e, ao mesmo tempo, fortalecer processos de escuta, diálogo e participação que devolvam protagonismo a quem é atendido. Isso demanda cultura organizacional alinhada com a missão, investimentos em formação de equipes, clareza nos processos de tomada de decisão e abertura para revisar modelos que já não dialogam com a realidade.
No fim das contas, a pergunta “quem decide o sucesso de um projeto social?” não tem resposta única, e talvez essa seja justamente a sua riqueza. Doadores alocam recursos e exigem profissionalismo. Beneficiários trazem experiências e demandam relevância. Entre um e outro, as OSCs precisam construir um caminho de articulação ética, integradora e responsável. O verdadeiro sucesso nasce quando a organização consegue equilibrar esses polos, transformando expectativas, dados e vivências em impacto que faz sentido para todos, mas, sobretudo, para quem mais precisa.
Porque, em última instância, projetos sociais existem para melhorar vidas. E nenhuma planilha, por mais sofisticada que seja, pode substituir a percepção de quem vive essa transformação, na prática. A gestão do Terceiro Setor só avança quando compreende essa verdade simples: o impacto é sempre compartilhado, mas seu significado final pertence, antes de tudo, a quem o sente na pele.
(*) Thaís Iannarelli é diretora-executiva da Rede Filantropia.



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