FIFE 2026: De cada R$ 100 doados no Brasil, Norte e Nordeste recebem apenas R$ 21

Palestra abordou desafios e estratégias para driblar concentração de recursos para a filantropia no Sul e Sudeste

A concentração regional de recursos no Brasil ainda impõe barreiras estruturais à atuação de organizações sociais no Norte e Nordeste. Dados da pesquisa BISC/Comunitas mostram que, em 2024, o Sudeste concentrou 36% dos investimentos sociais privados (R$ 1,4 bilhão), seguido pelo Sul, com 27% (R$ 1,08 bilhão). Já o Nordeste recebeu 20% (R$ 789,4 milhões), enquanto o Norte ficou com apenas 1% do total, cerca de R$ 34,8 milhões — um retrato da desigualdade que atravessa o campo da filantropia no país.

Foi a partir desse cenário que Bia Gurgel (foto no topo), fundadora da BG Soluções Sociais, estruturou sua fala sobre captação de recursos fora do eixo tradicional, na primeira manhã do FIFE, em Recife. Com formação em Comunicação Social pela Universidade de Fortaleza e mestrado em ajuda humanitária internacional, a especialista destacou que a construção de estratégias nessas regiões exige mais do que técnica: demanda tempo, investimento contínuo e presença territorial. “Construir redes é um processo constante”, afirmou, ao apontar que o relacionamento com financiadores não se estabelece de forma imediata.

Outro desafio central, segundo ela, está na consolidação de autoridade técnica. Em contextos onde o acesso a grandes financiadores é mais restrito, organizações precisam investir em especialização, sobretudo em temas transversais que dialogam com agendas nacionais e internacionais. Nesse processo, a articulação com políticas públicas aparece como um caminho possível de descentralização de recursos, com exemplos como fundos de direitos e iniciativas de advocacy que ampliam o alcance institucional.

A leitura qualificada do cenário também foi destacada como fator decisivo. Para além dos editais e chamadas públicas, Gurgel ressaltou a importância de compreender dinâmicas informais, redes de influência e o próprio “mercado” da filantropia. Nesse ambiente, insistir sem estratégia pode gerar desgaste institucional. “Não dê murro em ponta de faca”, resumiu, ao diferenciar resiliência de insistência improdutiva — um alerta direto para organizações que operam sob escassez, mas precisam manter foco e inteligência na captação.

Texto e foto: Agência Pauta Social

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