Silvia Naccache (GEVE/Brasil) (*) e Angela Parker (Realized Worth/EUA) (**)
Repensando o Voluntariado Corporativo no Ano Internacional do Voluntariado pelo Desenvolvimento Sustentável (2026)
Durante décadas, programas de voluntariado corporativo foram avaliados principalmente por métricas quantitativas: número de voluntários, horas dedicadas e quantidade de ações realizadas. Esses indicadores são relevantes. Eles demonstram mobilização, escala e adesão interna. No entanto, são insuficientes para revelar o verdadeiro alcance do voluntariado empresarial.
Medir volume não revela transformação. Não evidencia desenvolvimento de competências, fortalecimento institucional das organizações parceiras, mudança cultural nas empresas ou impacto real nas comunidades. A mensuração baseada exclusivamente em números tende a privilegiar o que é simples de registrar, mas não necessariamente o que é estratégico ou estruturante.
A pergunta central permanece provocativa:
Estamos medindo o que é fácil de contar ou o que realmente importa?
Migrar do volume ao valor exige uma mudança de mentalidade — da contabilização de participação para a compreensão de resultados, aprendizagem e transformação sistêmica. Significa sair da lógica de atividade e avançar para a lógica de impacto.
As Armadilhas do Voluntariado de Ação Isolada
Ações pontuais, desconectadas da estratégia e focadas apenas na entrega imediata tendem a gerar impacto limitado e pouco sustentável. São iniciativas que mobilizam pessoas por um dia, produzem registros fotográficos e relatórios de horas, mas raramente deixam legado estruturante.
Sem alinhamento estratégico, sem escuta ativa das organizações da sociedade civil e sem continuidade, as ações tornam-se eventos isolados. Produzem visibilidade, mas não necessariamente transformação. Muitas vezes, geram mais esforço operacional do que valor social consistente.
Isso não significa desconsiderar a relevância das mobilizações emergenciais em contextos de tragédias, desastres socioambientais, crises humanitárias ou pandemias — nessas situações, a ação rápida e pontual é necessária e pode salvar vidas. O ponto crítico é quando a lógica da excepcionalidade se torna regra e substitui uma estratégia estruturada e contínua de geração de valor social.
O voluntariado corporativo estratégico exige:
Programas sustentáveis não escolhem um único destinatário de valor. Eles equilibram interesses e constroem benefícios compartilhados com todos os envolvidos. O voluntariado corporativo só se consolida como estratégia e transformador quando cria valor simultaneamente para empresa, voluntário, organização da sociedade civil e comunidade.
Experiências Transformadoras
Para gerar valor real, é necessário estruturar experiências intencionalmente desenhadas para múltiplos públicos.
Para os voluntários, o voluntariado pode ser espaço de desenvolvimento socioemocional, fortalecimento da empatia, ampliação da visão sistêmica e exercício de liderança. Quando bem estruturado, torna-se ambiente de aprendizagem aplicada, capaz de desenvolver competências transferíveis ao contexto profissional.
Para as empresas, o voluntariado é ferramenta estratégica de fortalecimento da cultura organizacional, aumento do engajamento, retenção de talentos e desenvolvimento de lideranças. Conecta propósito individual ao propósito institucional.
Para as organizações da sociedade civil, programas estruturados oferecem acesso a conhecimento técnico, redes de relacionamento, metodologias de gestão e fortalecimento de capacidades institucionais. Não se trata apenas de mão de obra voluntária, mas de transferência de competências e construção de sustentabilidade organizacional.
Nesse contexto, a preparação estruturada das atividades, o acompanhamento durante a execução e os momentos de reflexão posterior não são etapas operacionais secundárias. São mecanismos centrais de aprendizagem, alinhamento e consolidação de impacto. A reflexão qualificada transforma a experiência em desenvolvimento.
O Desafio da Mensuração de Impacto
Medir impacto em ações contínuas, recorrentes e desenvolvidas com parceiros estratégicos é um dos maiores desafios contemporâneos do voluntariado corporativo.
Impacto não se resume a entregas imediatas. Ele envolve:
No Brasil, o censo do CBVE- Conselho Brasileiro de Voluntariado Empresarial aponta participação média em programas de voluntariado empresariais de cerca de 23% dos colaboradores. O BISC – Benchmarking do Investimento Social Corporativo registra uma taxa média de 25% nas empresas monitoradas.
Dados internacionais apontam cenário semelhante. Pesquisas conduzidas pela CECP- Chief Executives for Corporate Purpose indicam que cerca de 25% dos colaboradores participam de programas de voluntariado corporativo nas empresas analisadas nos Estados Unidos. Estudos da Charities Aid Foundation, por meio do World Giving Index, mostram crescimento consistente do voluntariado global nos últimos anos, embora com variações regionais significativas. Já relatórios da Points of Light reforçam a expansão do voluntariado baseado em habilidades como tendência estratégica internacional.
A escala, portanto, é relevante. A mobilização é expressiva. Mas o desafio estratégico permanece: como transformar participação em impacto sustentável e mensurável?
É necessário evoluir dos relatórios de horas para modelos que integrem indicadores de aprendizagem, fortalecimento institucional e mudança organizacional.
Ferramentas de gestão, validação e reconhecimento
A gestão do voluntariado no Brasil está ancorada em bases jurídicas e contábeis sólidas que conferem segurança institucional e legitimidade estratégica aos programas. A Lei 9.608 estabelece a natureza não remunerada da atividade e a inexistência de vínculo empregatício, garantindo clareza jurídica para organizações e voluntários. Esse marco normativo não apenas protege as partes envolvidas, mas também estrutura a governança das iniciativas.
No campo contábil, a ITG 2002 (R1/2015) determina que o trabalho voluntário seja reconhecido pelo valor justo da prestação de serviço, como se representasse um desembolso financeiro equivalente. Essa diretriz não é meramente técnica: ela chancela o voluntariado como recurso econômico mensurável, incorporando-o às demonstrações contábeis e ampliando sua visibilidade como componente do investimento social privado.
No cenário internacional, essa lógica converge com as orientações da Organização Internacional do Trabalho (OIT/ILO), que reconhece o voluntariado como dimensão relevante da economia e do trabalho não remunerado, e com os avanços do projeto IFR4NPO, que busca harmonizar padrões globais de reporte financeiro para organizações sem fins lucrativos.
Nesse contexto, a governança do voluntariado amplia-se para além da formalização jurídica, incorporando o princípio do Duty of Care — o dever de cuidado e segurança com voluntários e beneficiários — e fortalecendo práticas de transparência, gestão de riscos e accountability perante financiadores e doadores internacionais.
Essa integração entre base legal, reconhecimento contábil e padrões internacionais de governança consolida o voluntariado não apenas como expressão de cidadania corporativa, mas como ativo estratégico, mensurável e gerido sob rigorosos parâmetros de conformidade, transparência e responsabilidade institucional.
Voluntariado como Estratégia Central
O voluntariado corporativo não deve ser tratado como atividade periférica ou complementar. Ele é ferramenta estratégica de:
Ao migrar do volume ao valor, ampliamos sua potência transformadora e seu alinhamento aos desafios globais e aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável.
Nossas conclusões
Para o Ano Internacional do Voluntariado pelo Desenvolvimento Sustentável (AIV – 2026), este artigo é um convite à reflexão estratégica! Se o voluntariado corporativo pretende contribuir efetivamente para a Agenda 2030 e demais agendas globais promovendo solidariedade, inclusão e justiça social, precisamos avançar na forma como desenhamos, acompanhamos e mensuramos nossos programas. A pergunta permanece:
Como podemos medir melhor aquilo que realmente transforma e gera valor?
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(*) Silvia Naccache é especialista brasileira em voluntariado e cofundadora do Grupo de Estudos de Voluntariado Empresarial (GEVE), consultora, palestrante e conteudista. Atua junto a empresas e organizações da sociedade civil na estruturação de programas estratégicos de voluntariado que promovem fortalecimento institucional e geração de valor social de longo prazo, conectando a prática brasileira a padrões globais de governança e impacto.
(**) Angela Parker é uma liderança global em estratégia de voluntariado corporativo e cofundadora da Realized Worth. Atua no apoio a empresas multinacionais na estruturação de programas de voluntariado baseado em habilidades, alinhados às prioridades ESG, ao desenvolvimento de lideranças e à geração de impacto social mensurável. Contribui ativamente para o diálogo internacional sobre efetividade do voluntariado e parcerias intersetoriais.
Referências e Fontes
BISC – Benchmarking do Investimento Social Corporativo
https://www.comunitas.org/bisc
CECP – Chief Executives for Corporate Purpose
https://cecp.co
Charities Aid Foundation (CAF) – World Giving Index
https://www.cafonline.org
Conselho Brasileiro de Voluntariado Empresarial (CBVE)
https://www.cbve.org.br
IFR4NPO – International Financial Reporting for Non-Profit Organizations
https://www.ifr4npo.org
International Labour Organization (ILO / OIT)
https://www.ilo.org
ITG 2002 (R1/2015) – Entidade sem Finalidade de Lucros (CFC)
https://www.cfc.org.br
Lei nº 9.608, de 18 de fevereiro de 1998 (Lei do Voluntariado)
http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/l9608.htm
Points of Light
https://www.pointsoflight.org
United Nations Volunteers (UNV)
https://www.unv.org


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