O dia 18 de maio faz parte do calendário nacional desde 1998 como data representativa de uma guerra que apresenta batalhas diárias. Trata-se do Dia Nacional de Combate ao Abuso e à Exploração Sexual Infanto-Juvenil. Apesar de tema de urgência evidente, muito ainda deve ser feito no sentido de reduzir, quiçá exterminar, a violência sexual contra crianças e jovens. Já existem movimentos sólidos e crescentes voltados a essa causa, que apresentam conquistas dignas de registro. Quanto mais palmas, divulgação e apoio para as organizações envolvidas nessa luta, menos palmadas nas crianças e jovens brasileiros.
Então o dia definido exalta a impunidade, motivação da crescente violência social? A resposta é afirmativa no sentido de registrar a histórica inoperância do sistema judiciário, que, desde o descobrimento da nossa terra tupiniquim, vem fazendo vistas grossas e ouvidos de mercador para muitos casos que envolvem sobrenomes tradicionais. No entanto, a preferência por 18 de maio também pode e deve ser interpretada como um compromisso com um ser humano indefeso que pagou com a vida pela impunidade. Esquecer é permitir; lembrar é combater. É por Araceli, assim como por outras crianças e jovens que já sofreram, e na esperança de evitar sofrimentos futuros, que o Cedeca-BA tem trabalhado para defender e garantir os direitos fundamentais infanto-juvenis, especialmente o direito à vida e à integridade física.
A história do Centro de Defesa da Criança e do Adolescente Yves de Roussan, o Cedeca-BA, é marcada, segundo Samantha Xavier, psicóloga e vice-coordenadora executiva da organização, “pela ousadia e independência de quem faz da mobilização, da articulação e do conhecimento as principais estratégias”. Fundado em 1991 por entidades sociais de Salvador, as ações do Centro vêm desenvolvendo mecanismos que fortalecem a proteção jurídico-social, a prevenção e o atendimento às crianças, adolescentes e seus familiares, vítimas de homicídios e de violências sexuais. Samantha afirma: “O método de intervenção social dessa instituição está baseado no desenvolvimento prévio de pesquisas setoriais, que possam contribuir para uma leitura mais realista e apurada de determinada situação”. As pesquisas fornecem elementos para que o Cedeca-BA tenha como atuar na questão de forma consciente e transformadora, construindo políticas públicas que dêem prioridade à proteção integral da criança e do adolescente.
Articulando setores estratégicos da sociedade baiana, veiculou-se em julho de 1995 a Campanha contra Exploração Sexual lnfanto-Juvenil, primeira ação do Plano, que ganhou visibilidade nacional ao ter sido adotada pelo governo federal em dezembro do mesmo ano. O apelo e o incentivo à denúncia foram as marcas da campanha, nas vozes e canto de Renato Aragão, Caetano Veloso, Gilberto Gil e Daniela Mercury. Segundo Samantha, “naquele primeiro ano foram recebidas 3,4 mil denúncias, sendo abertos 300 inquéritos na Bahia”. A campanha acabou impulsionando a iniciativa de quatro novas leis (duas municipais e duas federais) específicas no combate à violência sexual infanto-juvenil e dezenas de campanhas regionais. Precursora no país, a mobilização é realizada todo ano, durante o carnaval, reunindo entidades públicas, sociedade civil organizada, artistas e comunicadores, formando uma grande rede em defesa dos direitos infanto-juvenis.
O Centro também oferece a seus usuários serviços gratuitos de advocacia, psicoterapia individual, musicoterapia, dança e grupos de apoio, além de equitação, ginecologia, pediatria e odontologia por meio de convênios com profissionais liberais e clínicas de Salvador. Caso fossem pagos, tais serviços sairiam por aproximadamente R$ 840,00/mês. No entanto, a vice-coordenadora ressalta: “O custo do Cedeca-BA com seus pacientes gira em torno de R$ 99,50. Isso demonstra que o trabalho com uma equipe multidisciplinar e as parcerias reduzem significativamente os custos com o tratamento das crianças, adolescentes e suas famílias”.
São muitos outros os exemplos de intervenção social que o Cedeca-BA tem para contar nos quase 15 anos de existência. Muito já feito, mas a consciência de que há muito ainda a fazer. Dentre as prioridades está o plano de aumentar sua capacidade de atendimento atual, que é de 150 crianças e adolescentes, simultaneamente. Para tanto, está à busca de financiamento a fim de aumentar a equipe de profissionais de atendimento direto, fundamental para alcançar a meta.
Não há dúvidas de que inúmeras crianças, infelizmente, ainda choram silenciosamente. Por esse motivo é que se deve torcer pela ampliação e o sucesso das organizações como o Cedeca-BA, assim como para o encorajamento da sociedade civil voltado à denúncia, ferramenta indispensável para a justiça.
150: crianças e adolescentes atendidos
3,4: mil denúncias durante a Campanha contra Exploração Sexual lnfanto-Juvenil (1995)
300: inquéritos abertos na Bahia durante a mesma campanha Cedeca-BA


